terça-feira, 18 de outubro de 2011

MOVIMENTOS

Joyboy

The West Indian character who personifies the human need to dance, sing and jubilate. He is a relation of the Lord of the Dancers who inspires festivals in colder countries and it seems likely that he traveled to the Caribbean with an early shipment of slaves from West Africa. Joyboy smiles perpetually at all the foibles and problems of mankind and cures human troubles by tapping out an irresistible rhythm on his drum. Whoever hears the music of Joyboy is compelled to dance and sing along until he or she has shaken the black cloak of despair from the shoulders (…).

(From Encyclopedia of Things that never Were, by Michael Page and Robert Ingpen.)

Movimento 1
Este livro veio assim:
dançando em meio a outros.

Movimento 2
Mágico
é aquele momento
que amo.

Todo momento
de dança
é um momento mágico.

Movimento 3
Misturo
Deus e o Diabo
em minha dança.

O divino
e o profano.

O corpo
e a alma.

Meu corpo
não suporta mais
tanto dançar.

Acabo-me
para me eternizar.

Movimento 4
De fato,
não danço:
sou dançado.

E isso
não se ensina.

Movimento 5
A voz de alguém vem de longe, muito longe.
É um canto que atravessa este deserto e chega até mim.
Uma ave voa lá no alto.
Aquela voz prossegue cantando.
Acredito ser a voz de um velho.
É um solfejo, e me diz muito.
Ninguém por perto.
O céu é estrelado.
O deserto é frio.

O calor da fogueira, retribuo;
a voz que vem de longe, retribuo;
o ritmo que me conduz, retribuo:
dançando.

Movimento 6
O corpo é templo.
É prazer, é ritmo, é fonte.
Do corpo, jorra a vida.

Quando dançam,
todos os corpos estão em sintonia;
e não expressam só a língua do corpo.

Alma e corpo se dão,
convidam-se para dançar.

No corpo que dança
há um coração
e um corpo
que pulsam nobres.
Um corpo dançante
é a vida mesma
celebrando o ato de viver.

Movimento 7
Não era possível saber
se estavam louvando
um só deus
ou se cada um louvava
o deus em si.
O fato é que dançavam,
e dançavam de tal forma
que pareciam de fato louvar um deus,
e pareciam felizes,
e parecia que
poderiam ficar
dançando para sempre.

Movimento 8
Tenho a dança em mim.
Sou a dança!

Ao dançar,
sou real.
Jamais esboço, projeto, esquema.
Sou completo, pleno
e alargo minha completitude.
Sou ousado, sensual, improvisador.

No momento em que danço
sou centelha dançante
proveniente de um universo
que dança.

Movimento 9
Nasci para a fantasia. 
O coração dita o ritmo. 
Eu concordo. 
Eu danço.
Amanheço.

Quando vier o dia 
em que meu coração 
não mais quiser a percussão, 
não mais quiser repercutir, 
terão acabado para mim 
a fantasia, 
o sonho, 
o ritmo. 

Queixas? 
Tive o privilégio de estar aqui e dançar. 
Tenho mais é de agradecer. 
Não terei vivido em não. 
Enquanto dancei, 
enquanto danço, 
a vida foi sim, 
a vida é sim 
e sempre. 

Já fui feliz: 
dancei. 
Sou feliz agora. 
Há uma canção 
que perpassa o que sou. 
Meu corpo dialoga com ela. 
Por ora, vivo meu coração. 
Que pulsa forte 
e me chama para a pista, 
que enlaça minha alma 
e comanda meu corpo. 
Danço e fantasio. 
É assim que sou de verdade, real. 
É assim que sou.

Movimento 10
“Pintar é libertar-se,
e isso é o essencial”.
Picasso sabia o que
cada pincelada significava.

Sei o que cada
movimento dançante
significa.

Movimento 11
Certo é que não posso dançar
sempre que quero.
Quando a música chega até mim
e o ritmo vem trazendo
sua contagiante matemática,
movo os pés,
tamborilo os dedos.

Em momentos assim,
estivesse onde estivesse,
bom mesmo seria ter a coragem
de sair dançando por aí.

Movimento 12
Quem me vê a dançar
vê por fora
o que sou por dentro.

Às vezes não consigo
caber em mim.
Danço então,
pois o espaço
me compreende.

Movimento 13
Dançar é bom
por que
nunca sei
como vou dançar.

Movimento 14
Viva o arrepio,
viva o corpo,
esse templo
que agora
faz gozar
minha alma,
fazendo-me
dançar.

Movimento 15
Estou dançando.
Suor,
sensatez
e insensatez.

Sensatez
no ritmo.
Insensatez
no devaneio.

Dançando,
sou mais do que corpo,
sou mais do que alma,
sou fusão,
sou amálgama.

Dançando,
vejo unidade
e unicidade 
em meus fragmentos.

Movimento 16
A dança como momento
de reflexão,
de indagação,
de melancolia.

A dança
que sangra feridas,
que fustiga fantasmas,
que remexe fracassos.

A dança
que me dança até mim.

Estou triste.
E danço.

Danço.
E estou triste.

Movimento 17
Ela dança ao luar.
Corpo em movimento.

Ela dança para o luar.
Lua em movimento.

Ela dança para mim.
Coração em movimento.

Movimento 18
A noite cai
para iluminar as pessoas.
A boate dança
para amanhecê-las.

Movimento 19
Dançar é básico,
é primitivo.
Eu poderia
ficar dançando
por toda minha morte.

Movimento 20
Só alcanço o melhor em mim
por meio do melhor fora de mim. 
Neste momento, 
o melhor fora de mim é o ritmo.
Por isso danço.
Dançar é voltar
para mim mesmo.

Movimento 21
A noite esconde
as pessoas.
Escondidas,
reciclam-se,
revelam-se,
são:
dançam.

Movimento 22
Um corpo que dança
é um corpo feliz.
Meu corpo dança 
de felicidade.

Movimento 23
Agradeço
por ser
um possuído
pelo ritmo.
Que tem início
e vai se espalhando
pelo corpo.
Vai se espalhando,
fazendo-me feliz,
fazendo-me orar,
levando-me
para estar
junto a Ele,
num ritmo infinito,
que vai se espalhando
corpo afora,
até desembocar
na alma.

Movimento 24
Que cada um
ache seu modo 
de ser feliz. 
O meu é dançando.

Movimento 25
Dançante é tudo aquilo
que convida o corpo a se mexer. 
O corpo não vem sozinho. 
Pode trazer outro... 
Pode trazer à tona o que sou... 

Dançar pode ser triste. 
Dançando, há a possibilidade 
de se chegar à verdade da tristeza. 

Agradeço pelas tristezas 
que fico remoendo ao dançar, 
agradeço pelas tristezas 
que fico suando ao dançar. 
São sempre momentos
em que a verdade me torna brilhante.

Dançar é um momento naturalmente crucial.

Movimento 26
Sou feito de transitoriedade. 
Ela me preenche por completo neste momento. 
Diante do tempo, do espaço,
não chego a ser um verso qualquer num papel barato.
Apesar das coisas que me disseram ser eternas,
apesar do átimo que sou, 
há um movimento que me anima, 
que me entusiasma; 
há um corpo, meu corpo, 
que me deixa com uma forte impressão 
de que estou vivo de verdade, 
de que sou alguém. 
Então danço como ninguém.

Movimento 27
Sempre dependi demais das coisas. 
Dói em mim quando a turma vai embora,
quando não bebo nenhuma criação. 
Morte é quando o ritmo deixa de existir. 
Morrer é ficar sem ritmo. 
Deixem-me viver pleno. 
Quero dançar no tempo certo 
ou no contratempo.

Movimento 28
Dançam os dois:
ritual de acasalamento. 
As luzes piscam,
o DJ faz a trilha. 

Dançam os dois. 

Ele quer. 
Ela, querendo, recua. 
Ele vai atrás.
Ela cede.

Dançam os dois.

Ela quer. 
Ele, querendo, recua. 
Ela vai atrás. 
Ele cede.

Dançam os dois.

Preliminar dançante: 
um corpo dança para o outro 
o ritmo da madrugada: 
um corpo vai dançar no outro.

Movimento 29
Há coisas em mim
que são pensadas, premeditadas, calculadas, fingidas.
Outras fazem parte de meus instintos;
são atávicas, históricas, fundas.
A dança em mim pertence a estas.
Ela vem não sei bem de onde 
para me conduzir até 
o mais profundo lugar do eu-mesmo.
É lá que moro, é lá que estou. 
É de lá que venho, lá é minha casa.
Somente vindo de lá é que poderei espalhar-me, diversificar-me, dançar.
É desse lugar em mim mesmo que vem a dança em mim.
Danço para reencontrar a dança que há em mim, 
danço porque preciso voltar pra casa, 
preciso me sentir em casa,
preciso resgatar aquele movimento primeiro e primordial que me animou.
Achar a dança é estar diante de mim mesmo,
face a face com o que me anima, me entusiasma.

Movimento 30
E eu danço.
E eu danço muito.
E eu danço.
E eu danço muito.
E eu danço.
E eu danço muito.

O ritmo é a mesma coisa de novo, 
que se repete outra vez 
para surgir novamente.
E quanto tempo eu ficaria nessa mesmice...
Ficaria minha vida toda indo e voltando 
nesse contágio que me renova, 
que cansa meu corpo sem nunca me cansar 
de estar vivendo assim, 
para viver desse modo novamente, 
a mesma coisa incansável que me faz dançar, dançar muito, 
vivendo outra vez o que a cada momento parece ser diferente.

Movimento 31
Há um momento para tudo e um tempo para todo propósito debaixo do céu.
Tempo de dançar, 
e tempo de morrer; 
tempo de plantar, 
e tempo de dançar. 
Tempo de matar, 
e tempo de dançar; 
tempo de destruir, 
e tempo de dançar. 
Tempo de chorar, 
e tempo de dançar; 
tempo de gemer, 
e tempo de bailar. 
Tempo de atirar pedras, 
e tempo de dançar; 
tempo de abraçar, 
e tempo de dançar abraçado. 
Tempo de buscar, 
e tempo de dançar; 
tempo de guardar, 
e tempo de dançar. 
Tempo de rasgar, 
e tempo de dançar; 
tempo de calar, 
e tempo de cantar. 
Tempo de amar — que é o tempo de dançar; 
tempo de guerra — e templo de dança.

Movimento 32
Ao dançar, sei como foi
o mais antigo dos homens,
e estou em sintonia com o mais moderno.

Os homens de ontem dançaram.
O ritmo é atávico, antigo, ancestral.
Os contemporâneos dançam.
O ritmo é atual, moderno.

Movimento 33
Virá o dia 
em que meu coração 
deixará de ser ritmo. 
Enquanto isso, 
é hora de ser melodia.

Movimento 34
Deem-me espaço.
Este é um momento meu. 
Não se aproximem,
afastem-se,
não se preocupem; 
deixem-me pular em paz. 
Ocuparei todos os espaços 
que a música me pedir para ocupar, 
do jeito que a música pedir. 
Não sei em que espaço estarei
nem de que forma ocuparei
os espaços que me restam.
Deem-me um momento.
Este espaço é meu.

Movimento 35
Eu estou dançando.
Você está dançando.

Eu estou sentindo que você está tendo prazer enquanto dança.
Você está sentindo que eu estou tendo prazer enquanto danço.

Estamos olhando um para o outro.
Um gostando do gostar do outro.

Eu estou dançando para mim.
Você está dançando para si.

Acabamos agradando um ao outro.
Acabamos dançando um para o outro.

Movimento 36
Cheia, cheia a boate. 
Você dança, dança, dança... 
Luzes, luzes, luzes... 
Luzes dançam no espaço. 
Gente, muita gente dança. 

Luzes incidem sobre você — 
você as faz brilhar. 
Luzes emanam de você — 
você as faz dançar.

Movimento 37
Todos dançam. 
Ninguém dança igual. 
A multidão pulsa, 
é um todo móvel. 
Mas, vista de perto, 
revela singularidades dançantes.
É um movimento coletivo.
É um movimento individual.
Cada um na multidão dança — 
é o que têm em comum. 
No mais, cada um faz do corpo 
o que bem sente.

Movimento 38
Dança-se sozinho na sala. 
Dança-se sobre o palco.
Dança-se a céu aberto.
Dança-se em pista lotada.

O si-mesmo, a plateia, a chuva, a catarse...
Difícil saber o que a dança trará.
Do que sei: estáticos, não marcamos
encontro com a vida.

Ela está por aí,
já fez a parte dela,
já saiu para dançar.
E aguarda um parceiro.

Movimento 39
Ela é a maior dançarina 
que já poderia ter havido. 
Mas não houve.

Ela ama a dança 
com o maior de seus amores, 
mas não dança mais 
(dançou tão pouco). 
Deixou guardados 
seus melhores movimentos, 
acha que não há tempo mais 
para flutuar seu corpo. 

Dança, minha artista, dança. 
Dá o primeiro passo, 
minha dançarina, 
e tudo que és 
(tu és dança pura) 
vai surgir dançante.

Movimento 40
O balé da vida.
Ela dança.

Tudo o que é vida e arte
então se movimenta.
Uma felicidade ancestral e espontânea 
passeia pelo corpo dela. 
Uma felicidade sutil e requintada 
brinca em minha pele.

Eu a achei no baile da vida.
Privilegiado, tornei-me parte
dos movimentos dela.

Movimento 41
Todos estão por perto. 
Somente uma pessoa dança. 
Alguns comentam; 
outros apontam; 
outros pensam em aderir. 
Uma ou outra, timidamente, 
move, sem sair do lugar, o corpo. 
Mas uma pessoa dança livre.
Finalmente, outra se levanta.
Do outro lado, uma outra.
Do outro lado, outras.
Até que todos estão dançando.

Movimento 42
“Hold me closer, tiny dancer”.
                                Elton John/Bernie Taupin

A bailarina ensina.
Parece criança.
As crianças dançam.
Parecem gente grande.

Movimento 43
Ela ama a dança 
há muito tempo.
Eu a amo há 
um bom tempo.

Ainda não vi 
como é que ela 
ama dançando, 
como é que ela 
dança amando.

Melhor isso
não ocorrer.
Meu extenso
amor vai se 
agitar mais,
se agigantar
ainda mais.

Fico com
o imaginar.
Afinal, ela
dança longe.

Movimento 44
Seus movimentos 
estão tristes. 
Ela se move 
buscando alegria. 
Um passo, outro passo... 
Seus movimentos 
ainda estão tristes. 
Será que dessa vez 
a dança será menor?

Foi.

Movimento 45
As dores que causo a mim, 
as dores que me causam, 
as dores que causo aos outros... 
Não é fácil, meu amigo. 
Quando dói demais, 
cada um se vira como pode, 
cada um se visita como consegue. 
Há muito não danço. 
É hora de dançar como nunca, 
suar as tristezas dos últimos tempos. 
Momento de ação 
e de agito para trazer 
uma nova manhã cheia de alívio.

Movimento 46
Dançarina cheia de graça.

Seu corpo tem graça.
Suas ideias têm graça.
Suas graças me enlevam.

Dançarina plena de graças.

Movimento 47
A força do verbo me arrebata.
A força do ritmo me agita.
Verbo e ritmo compõem
A força de minha vida.

Movimento 48
É preciso
que se perca
a razão.

Por isso
a dança
é razão
pra que
eu viva.

Movimento 49
Minha dança não é igual à dos demais. 
Queria que fosse. 
Não danço com eles. 
Não danço nem com ela. 

De um jeito nada gracioso 
nem sestroso, danço. 
Sem dançar com ninguém, 
sem dançar para alguém. 
É assim que sei dançar. 
Conseguisse eu, 
dançaria em equipe, 
dançaria para te fazer feliz.

Movimento 50
Teu nome: Poesia.
Tua lei: Ritmo.

Conheço tua lei.
Sei de teus
movimentos íntimos.
Experimento tuas
pulsações recônditas.
Aprendi a
manejar tua dança.

Digo tudo isso
com prazer e gratidão.
São teus 
meu idioma,
minhas palavras,
minha língua.

Dança para mim,
mulher-mito.
Para tocar fundo,
a canção está pronta.

Movimento 51
Exalava contentamento.
Plena de si e de seu corpo, 
não resistiu: dançou.

Movimento 52
Feliz o corpo 
que sabe 
o poder
de uma canção.

Movimento 53
Há anos não chovia.
Foi quando uma chuva louca
começou a cair no chão.
As pessoas, todas elas lúcidas,
saíram das casas e começaram a dançar.
Agradecida, a chuva choveu mais.

Agradecidas, as pessoas não mais pararam.

Movimento 54
Deus dança.
Deus mudança.
Deus me dança.

Movimento 55
O dia amanheceu dançante.
Meu corpo e o ritmo são duas coisas
vibrando num só idioma.
Nessa simbiose,
ele repercute,
eu danço.

A manhã vai se fazendo
enquanto vou me (des)fazendo
ao som de prosaica 
e sonora manhã.
Meu louvor
tem som,
ritmo
e corpo.
Dançar me expurga
de meus pesos.

Movimento 56
Este livro será assim:
dançará em meio a outros.